Belchior por ele mesmo

FELIPE LIMA

22 jun, 2022

Belchior está na moda. Seja pela silhueta de seu bigode estampada camisetas afora, seja pelos trechos de suas letras escritas em muros, perfis e panos de prato, seja através da boca de um novo público que passou a saber de sua existência por meio do sample de “Sujeito de sorte”, utilizado pelo rapper Leandro Roque de Oliveira em uma de suas canções.

No ramo mais especializado, vale destacar a excelente biografia “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano” (Ed. Tovadia), de Jotabê Medeiros, e o recém-lançado documentário “Belchior – Apenas um coração selvagem”, direção de Natália Dias e Camilo Cavalcanti e roteiro de Paulo Henrique Fontenelle – do excelente “Loki”, sobre Arnaldo Baptista −, e também dos diretores. O fato inegável é que Belchior tornou-se cult e voltou à luz, após seu polêmico período de ostracismo e de sua morte, em 2017. Isso é ótimo, pois, evidentemente, um artista de seu gabarito e grandeza merece ser conhecido e admirado pelas gerações futuras.

Em cartaz na 14ª edição do In-Edit Brasil − festival dedicado a documentários musicais −, o filme pode ser assistido gratuitamente na própria plataforma do festival, até o dia 28 de junho. Eu assisti e gostei, mas aproveito o espaço para algumas ressalvas.

Recheado com raras imagens de arquivo, muitas provavelmente nunca vistas antes pelo público, o documentário evolui, ao longo de seus 130 minutos, exclusivamente a partir de declarações do próprio Belchior, extraídas em sua grande maioria de trechos de entrevistas concedidas entre 1970 e 2010. Por um lado, isso é interessante, pois, mais do que nunca, ficamos por dentro do pensamento puro do artista, desde suas divagações e contradições, até pontos mais objetivos de sua trajetória. Por outro, perde-se demais ao deixar de juntar a isso o ponto de vista dos personagens envolvidos ao longo dessa  história. Rara exceção é uma breve fala de Elis Regina, enaltecendo o surgimento do autor no cenário musical.

O documentário tenta seguir uma ordem cronológica, no que, até certo ponto, obtém sucesso, mas a impressão que dá é que, em dado momento, passado o meio do percurso e ainda encontrando-se mais ou menos em idos de 1977, ano de lançamento de seu terceiro álbum, “Coração Selvagem”, a coisa dá um degringolada e o Fenemê perde o controle ladeira abaixo. Uma das explicações para isso, talvez seja o próprio método escolhido, uma vez que, possivelmente, não há material de Belchior falando sobre aquela época em detalhes. Problema esse que, volto a bater na tecla, poderia ser facilmente sanada por meio dos personagens daquele período e que, em última análise, configuram o grande pecado do documentário.

Ainda assim, é realmente muito satisfatório poder vê-lo cantando algumas de suas músicas consideradas “lado B” em performances que eu nunca havia visto antes. Uma pena que as músicas não sejam exibidas na íntegra. Seria de muito valor que todo esse empoeirado material de acervo ficasse disponível integralmente em algum canal, algum memorial digital ou coisa que o valha, mas, honestamente, crio que entraves burocráticos aniquilem tal possibilidade.

Belchior era conhecido por seu bom humor e por suas tiradas inteligentes. Uma delas a gente encontra logo aos 14 minutos, quando comentava sobre a época em que estudou no Mosteiro dos Capuchinhos e quase se tornou um frade. Cito: “Eu tenho as melhores recordações do período em que passei estudando em colégio de padre, porque, naturalmente, além de música, além do canto coral, foi lá que eu aprendi todas as coisas boas da vida, né, vinhos, charutos, mulheres, essas coisas todas que se aprende num bom colégio de padres…” Maravilhoso!

A única intervenção para além de Belchior que encontramos ao longo do documentário vem do bastante formidável Silvero Pereira, que, entre uma quebra e outra, recita alguma letra do cantor, em um tom não empolado e tampouco constrangedor para quem vê – coisas comuns de acontecerem diante de declamações amaneiradas.

Um dos pontos mais nebulosos da trajetória de Belchior e que deixa totalmente de ser explorado pelo filme, a não ser por breves trechos de reportagens da época (que, por sua vez, acabam por não elucidar muita coisa, apenas contextualizar), é o seu sumiço em idos de 2010. A história, que rendeu choque, memes e teorias da conspiração, é no mínimo intrigante. Por meio da biografia de Jotabê Medeiros, ficamos sabendo um pouco mais sobre o que se passou, mas, mesmo assim, ainda há espaço para mais investigações sobre o episódio. Foi mais uma boa chance que se perdeu diante da escolha bastante questionável dos diretores e roteiristas de lidarem apenas com a voz de um Belchior de acervo.

Resumo da ópera: o filme vale ser visto, tanto pela grandeza do artista como, também, pelo material inédito que encontramos por lá. Porém, se o objetivo for conhecer mais a fundo a vida de Belchior, com todas suas nuances, histórias, “causos” e, também, a inserção de sua obra durante esse percurso, pode esquecer. Para quem estiver só de passagem, a coisa toda pode soar até enfadonha, o que é uma pena, pois perde-se uma ótima oportunidade – e haverá outra? − de contar essa história bem contada a todas aquelas pessoas cinzas normais que, seja desde sempre, seja de agora, se interessam por esse sujeito de sorte.

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