Rock Brasil: 40 anos

FELIPE LIMA

2 maio, 2022

Não sei vocês, mas, nesse carnaval fora de época, passei ao largo dos tradicionais desfiles. Até porque achei muito confusa essa coisa de mudarem a data e misturarem os desfiles de São Paulo e Rio no mesmo dia, ter coisa que não foi televisionada e ainda não ter a Monalisa Perrone comentando. Tudo isso foi muito duro para mim.

Lamúrias à parte, a verdade é que não aguento mais essa coisa de carro alegórico e escola de samba. Todo ano a mesma coisa, quem viu uma viu todas, é muito cansativo. Entendo que tem muita gente que vive disso e para isso, porém, essa não é a minha realidade e tampouco a minha praia.

Tudo isso para falar que, entre uma mudança e outra de canal, deparei-me com o festival Rock Brasil 40 Anos, um encontro da turma que fez sucesso naqueles idos. Na realidade, já tinha ouvido falar disso quando rolou aqui em São Paulo, pois vi que o CeLEEbration − tributo à Rita Lee capitaneado por seu filho, Beto Lee − tocou e eu até queria ter visto. A surpresa foi saber que trata-se de uma espécie de festival itinerante e, nesse carnaval, ele estaria rolando no Rio, na Marina da Glória, que fica pertinho do Santos Dumont – informação absolutamente desnecessária, mas eu, como apaixonado por aviação, faço questão de citar. Ah, e o melhor de tudo: ele seria televisionado pelo Canal Brasil, de quinta a domingo.

Quem estava apresentando o festival era a dupla Simone Zucolotto, um poço de simpatia, e Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs e atual pesquisador da história da música, além de apresentador do programa “O Som do Vinil”, também no Canal Brasil. A química entre os dois rolou bem, mesmo com aquela tradicional falta de sal no estilo de Charles.

Antes de um artista ou banda subir ao palco ou, principalmente, logo depois de o show terminar, os dois já pegavam a figura para bater um papo. O fato de Charles ser um camarada da música gerava um lance muito legal, pois todos o conheciam com certa intimidade, tinham vivido histórias juntos, aquela coisa toda, então o papo fluía bem e sentia-se o carinho dos artistas em geral para com ele e vice-versa.

Um dos momentos que eu mais aguardei e gostei foram as entrevistas com Nando Reis e com os Titãs, afinal, os caras conviveram por mais de vinte anos. Foi legal, existia um todo um afeto ali, mas, novamente, talvez o estilo frio e mofino de Charles tenha criado uma barreira que não deixou a coisa fluir como eu esperei que fluísse. Um dado, inclusive, que me impressionou foi o fato de essa ter sido a primeira apresentação dos Titãs que Charles teria assistido. Poxa, o cara saiu da banda em 2010… Que coisa estranha!

É claro que ver e ouvir nomes como Marina Lima, Ira!, Titãs, Léo Jaime, Paralamas do Sucesso, Blitz, Camisa de Vênus, Barão Vermelho, Paulo Ricardo e afins é sempre muito satisfatório para quem gosta do som daquela época, como é o meu caso. No entanto, é muito, muito importante termos a clareza e o discernimento de saber que tudo, um dia, tem seu fim.

É muito sorumbático ver a situação de bandas como Paralamas do Sucesso, por exemplo, onde o Herbert Viana já não consegue mais cantar e está literalmente gritando, mas eles seguem como se nada estivesse acontecendo. Com o perdão do trocadilho, é gritante a decadência sonora, mas agem como se não houvesse um elefante branco em cena. Por outro lado, eu também sei que não é simplesmente acordar e dizer: chega! São anos de estrada e aquele é o trabalho deles, mas, poxa vida, é dolorido para quem gosta, tem boas lembranças e assiste. A verdade é que é sempre importante saber a hora de parar.

Outro caso bastante chocante é o Ira!, em que um Nasi já um tanto ébrio e visivelmente incomodado com algo, querendo arrumar encrenca com alguém e sem voz alguma para cantar suas mais interessantes baladas, vai acontecendo sobre o palco, entre um gole e outro de uísque. Música após música, a coisa vai degringolando e, mesmo com todo o apuro técnico de um Edgard Scandurra, o espetáculo termina aos trancos e barrancos e com Nasi também aos gritos. É triste.

Ainda agora eu disse que era importante saber a hora de parar. É mesmo, porém, caso realmente o desejo seja seguir em frente, seria interessante, pelo menos, parar para treinar um pouco a voz, fazer uma fono, retomar aulas de canto, etc e tal. E reparem que eu estou falando aqui majoritariamente dos vocalistas, pois a parte instrumental ainda está segurando a onda, seja porque os deslizes aparecem menos, seja porque se dedicam mais, ou porque muitas vezes, atrás das estrelas, tem um time graúdo segurando o tranco. O que importa é que ainda funciona.

Bandas como Titãs, por sua vez, ainda estão bem, embora a impressão que dê, no caso deles, é que não haverá mais integrantes até o fim do ano. É triste lembrar aquela banda com oito pessoas e ver hoje apenas duas delas no palco – Sergio Britto, outro que também gosta de um berro, e Toni Belotto que, na falta dos antigos cantores, agora lançou-se ao microfone −, já que o terceiro remanescente, Branco Mello, está se curando de um câncer. Aliás, por falar nele, foi emocionante sua participação especial no show, tocando contrabaixo em algumas músicas mais tranquilas.

Por outro lado, se há alguns casos trágicos, quase de descaso para com o público, há também aqueles que se mantêm firmes, seja por uma benevolência do tempo, seja por puro suor e dedicação. Dois casos que eu destaco aqui são Humberto Gessinger e Paulo Ricardo. Ambos estão em plenas condições vocais e apresentam um espetáculo de primeira linha.

Um show que eu gostaria muito de ter visto e que, inexplicavelmente, o Canal Brasil não exibiu foi o do Capital Inicial. O Dinho é aquela coisa que se recusa a envelhecer e, pelo o que vimos no último Rock’n Rio, também tem apresentado algum déficit vocal (ele cantando “Bohemian Rhapsody” é impagável). Instrumentalmente, o grupo nunca foi um destaque, no entanto, as músicas animam e divertem. Uma pena esse hiato na transmissão. A única explicação que vejo é alguma questão contratual entre a banda e os organizadores. Ademais, nada faz sentido.

Como diz um grande amigo e músico, tem banda ali que já não era muito boa nem nos tempos de glória, quem dirá agora. Infelizmente, é verdade. Ainda assim, todos ali têm muito valor e foram fundamentais para a construção dessa nossa parede musical que nos trouxe até aqui.

Por fim, alguns nomes de que senti muita falta foram Guilherme Arantes, Lulu Santos, Eduardo Dussek, Ritchie, Nenhum de Nós e Lobão. Não sei como puderam escapar dessa celebração, mas, de qualquer maneira, os que lá estiveram seguraram a onda com galhardia, cada qual à sua maneira e, em última análise, fizeram uma bela homenagem a esse importante período de nossa cultura.  

★ ★ ★

1 Comentário

  1. Felipe Borghi

    Belíssimo texto, fiquei com vontade de assistir!

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